sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

FRANZINA

... era uma mulher pequena, franzina. Tinha uma pele gasta, seca, parecia uma pele nunca acariciada. Eu a vi passando pela rua, num caminhar suspeito, assim se escondendo de algo, olhando para os lados como se fugisse de um pesadelo enfadonho. Os olhos tumultuados pela noite traziam em si a certeza de que para ser completa precisa preparar a paz de todo santo dia. Ela passou pela minha janela e eu, cansado de olhar movimentos vazios da noite, senti ânsia de segui-la. Saí decidido para ver aonde ia aquela mulher. Ela seguia rapidamente, abraçando sua bolsa. Imaginei um tesouro dentro dela. Um tesouro do qual o abraço poderia proteger. Só o abraço “dela” poderia proteger. Eu sentia solitário e atrevido ao seguir tão discreta personagem, pois se ela não chamava atenção, era porque queria ficar sozinha, imune. Imaginei seu segredo como se fosse hóstia que sacia a fome do cristão, ou o prato cheio de pão que satisfaz o mais esfomeado dos homens. Não sei...ela tinha em seu redor uma redoma que dava-me a certeza de que dali eu jamais passaria e que os limites de uma pessoa terminavam quando os dela começavam. Era forte demais o momento. Eu na sofreguidão de seguir e ela na loucura de chegar. Parei para fumar... Seus passos continuavam firmes, ressabiados, inseguros e ternos. Eram passos de mulher fraca, mas a determinação era forte, era divina, era singularmente sua. O caminho agora era escuro e pude ver seu pequeno xale nas costa se esvaindo no escuro. O xale era minha bússola. Andava por ele. Segui-o obcecado, sem saber que do mal que ela me parecia sofrer, eu já o estava sofrendo. Estava ansioso, preocupado. Queria saber o que aquela mulher queria dizer com tanto segredo. Cheguei a pensar que dentro de sua bolsa havia o coração de alguém, que ela o teria arrancado sem ninguém saber e que agora o escondia. Agora pude chegar mais perto discretamente. Tinha rosto de bailarina, sim...todas as bailarinas tem rostos semelhantes. Ela era a bailarina velha, que não bailava mais, mas andava com passos contados e melódicos. Eu era apenas o expectador vadio, que torce pelo tombo e paga para ver isso. Chegou à praça. Exatamente 55 minutos andando, fugindo, determinada. Entrou de cabeça baixa na igreja e correu até o altar de Nossa Senhora Terezinha. Ajoelhou-se e rezou por dois minutos. De dentro da bolsa retirou um pequeno pedaço de papel dobrado em muitas partes e depositou nos pés da santa, bem junto aos querubins. Um nome do pai e a despedida. Parecia dizer algo num idioma que eu, homem, não conseguia entender. Saiu assim, determinada e fugidia, como entrou. Fiquei parado um tempo. Era eu o louco da história, o bandido, o atravessador de segredos, o esbanjador de mimos. No ímpeto macho de salvar o pouco da lucidez que restava em mim, corri até os pés da santa e com sofreguidão peguei o pequeno pedaço de papel. Não pedi perdão pelo que fazia. Apenas o fazia. Abri o papel e pude ler:

“Nossa Senhora Terezinha, cuida do meu homem.”

Sim. O coração que estava dentro da bolsa, era o dela.


O UNICO AMOR QUE TENHO, DESTE OS 7 ANOS DE IDADE, DO QUAL NUNCA ME ARREPENDI, DESENTENDI OU RECLAMEI É O AMOR PELA MÚSICA. UM DOS MELHORES MOMENTOS QUE JÁ PUDE PASSAR FOI ESTA DECLARAÇÃO DE AMOR DE "BJORK" PELA MÚSICA BRASILEIRA NO CLIPE ABAIXO.



ATÉ O PRÓXIMO POST E CUIDADO COM OS SURTOS DA JUDITE, OS "TARJA PRETA DELA" ESGOTARAM E ELA ESTÁ TOTALMENTE INSONE.

2 comentários:

Anônimo disse...

Caro amigo , esses seus surtos não me causam temores pois sei que são surtos sadios e sua forma de escrever não me é estranha pois há muito tempo sentia falta dessa sua lucides de falar em metaforas mas sem esquecer nunca de citar o amor , seja o amor de amantes , o amor fraterno ou simplesmente amor e nunca deixando um dos símbolos de manifestação de amor que é a música fora de seus pensamentos . Conheço essa música e esse vídeo postado com uma islãndesa cantado em portugues e que como atriz participou do nosso filme querido chamado :DANÇANDO NO ESCURO que faz parte de uma trilogia do sacrificio das mulheres(sempre elas) por amor em todas as suas formas . Os outros filmes são :ONDAS DO DESTINO E DOGVILLE . OBRIGADO por voce ser a mesma pessoa que eu conheço a 27anos e por não ter endurecido com tempo. JAMES estranha

Antônio disse...

MARAVILHOSO!!!! Essa é aúnica palavra com a qual se pode definir o conto "Franzina".... Fazia tempo que não lia em lugar algum algo tão bom!